Eu te amo, eu te amo (Resnais, 1968)
Explorando o gênero da ficção científica.
Eu te amo, eu te amo (Je t’aime, Je t’aime) de 1968, conta a história de Claude Ridder (Claude Rich) que tinha acabado de sair de uma tentativa mal sucedida de suicídio, quando é chamado para fazer parte de uma experiência científica que o enviaria de volta para o passado.
Claramente escolhido a dedo para participar dos testes, principalmente pelo fato de ser um suicida, a instabilidade mental de Claude Ridder é o que provavelmente atrapalha o andamento planejado da experiência.
Comumente o gênero da ficção científica é visto como um meio para se trabalhar grandes ideias e temas, como por exemplo: a relação contemporânea com a tecnologia (Black Mirror); a sociedade de classes (Elysium, Metropolis); a alienação da realidade produzida (Matrix), etc. E claro, os clássicos da literatura que tiveram adaptações cinematográficas que trabalham temas eminentemente políticos: Admirável Mundo novo, 1984, Laranja Mecânica, Fahrenheit 451, dentre outros. No vídeo 39 do canal Lessons From The Screenplay, sobre Annihilation, há uma citação do diretor Alex Garland acerca dessa potencialidade da ficção científica: “A ficção científica é talvez o melhor gênero para explorar ideias fundamentais da existência”.
Por outro lado, o filme “Eu te amo, eu te amo”, apesar de explorar ideias temporais (que ficam apenas na superfície do roteiro), usa este gênero principalmente para explorar personagem.
Depois que a experiência se inicia, nos é apresentado uma série de situações da vida de Claude, de forma instigante e a modelo de quebra-cabeça. Ridder, conhece Catrine (Olga Georges-Picot) no trabalho e eles começam a ter uma relação estável. Pouco a pouco, vemos como a vida da personagem principal é suprimida por um trabalho repetitivo e depois impactada por sua mulher que encara uma depressão pungente.
No desenrolar da estória, na viagem de férias que remete a 1 ano antes da experiência à qual Claude se submeteu, Catrine acaba morrendo. No filme fica dúbio o papel exato que Claude desempenhou na ocorrência da morte de sua mulher, contudo ele mesmo acaba se dizendo culpado, depois que fora um acidente, gerando uma dúvida para o espectador que é justamente a dúvida interna que ele vivencia.
Na minha interpretação, Claude passa por uma dificuldade de integralização de objetos parciais — conceito emprestado da psicanálise de Melaine Klein, que remete a separação de afetos entre apenas bons ou ruins, à unificação de tais afetos da-se o nome de objetos totais. A personagem não consegue unificar os sentimentos conflitantes que sentia por sua esposa depressiva (sentimentos de amor e sentimentos de ódio, sentimentos bons e ruins) e provavelmente carregava dentro de si o desejo de que ela morresse por não conseguir lidar com o relacionamento nebuloso dos dois. Quando ela morre, ele é obrigado a lidar com essas dualidades (sendo arrastado para a posição que Klein chama de depressiva, que é quando se unifica os objetos parciais no objeto total), com o vazio deixado por Catrine e pela culpa que sente por ter desejado intimamente sua morte. O fato de Claude ter sido arrastado por essa posição depressiva por um fator externo traumático, a culpa pela morte da mulher, tudo isso pode o ter levado a cometer suicídio, coisa que provavelmente Catrine também o fez.
“Eu te amo, Eu te amo”, nos faz pensar numa denegação (mecanismo de defesa, no qual se afirma algo querendo dizer seu contrário) em seu título, no qual o personagem insistentemente grita seu amor, quando poderia querer dizer “Eu te amo, Eu te odeio”, uma afirmação de duas dualidades conflitivas que são complicadas de lidar emocionalmente. Com uma montagem instigante e bem ritmada o diretor Resnais, vai nos conduzindo pela psique de Claude, provando também que não é preciso de investimentos gigantescos em computação gráfica para explorar o gênero da ficção científica.