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                   Relembrando Amnésia
 

A montagem Polaroid num dos triunfos de Christopher Nolan

Originalmente intitulado Memento, o segundo longa-metragem de Cristopher Nolan é um filme extremamente bem montado, dono de uma narrativa muito interessante. Lançado no Brasil em 2001, Amnésia conta a história de Leonard Shelby (Guy Pearce), que sofre de perda de memória anterógrada — ou seja, ele não consegue se lembrar de fatos recentes — na busca pelo assassino de sua esposa (no mesmo evento, Leonard supostamente sofreu o trauma que o levou à sua condição). Para se organizar durante a investigação, ele escreve notas pra si mesmo, em folhas, atrás de fotos Polaroid e no próprio corpo.

Nolan e Pierce durante as filmagens de Amnésia (Memento, 2000).

O início da obra já nos dá algumas dicas de como o filme será contado — de frente para trás — quando uma foto vai se esbranquiçando (tal qual a memória de Shelby) e um corpo se levantando, antes do momento em que o personagem o mata. O suspense da trama gira em torno de levar o espectador a descobrir a sequência de fatos que levou o sujeito ao assassinato.

 

Logo após descobrimos que o homem que Leonard matara é Teddy (Joe Pantoliano), uma personagem intrigante a quem somos impelidos a não confiar devido às anotações de Lenny (como a esposa o chamava). Na verdade , este é um dos aspectos que propiciam a imersão do espectador no filme. Assim como Shelby, não sabemos como acabamos naquela situação e temos de confiar nas suas notas e, de modo instintivo, confiamos na personagem.
 

Paralelamente, por uma conversa de telefone, Leonard nos conta sobre seu passado como investigador de seguro de saúde, em especial do caso de Sammy Jankins, história essa que é imageticamente pontuada por Nolan em preto e branco para que o espectador não se perca da outra linha temporal acerca do encadeamento de ações que levou Lenny a assassinar Teddy. A história de Jankins se trata de como ele assassinou sua esposa devido a um problema similar ao de Shelby, após ele injetar o triplo da dose de insulina em sua esposa. Na investigação de Leonard, Sammy não recebe a indenização por não haver provas de uma deficiência física, fato este que faz com que a sua esposa faça uma série de tentativas para recuperar seu marido, levando ao desfecho fatal.
 

No decorrer da projeção, vemos como a personagem é usada por Natalie (Carrie-Anne Moss) — e também por Teddy — para que ele tome atitudes que beneficiariam seus enganadores (sua condição de memória e sede de vingança se tornam um atrativo simples para a manipulação).

Mais para o final do filme, quando as duas linhas temporais se encontram (a linha pontuada monocromaticamente e a linha que faz inserções cada vez maiores no passado de Shelby), o espectador tem material suficiente para montar a sequência de acontecimentos que levou à trágica conclusão dos fatos, mostrada no início do filme. Teddy revela a Lenny que ele projetava sua própria história em Sammy Jenkins, como um mecanismo de defesa para não entrar em contato com a responsabilidade da morte da mulher e que o John G. (o assassino de sua esposa) já fora achado e morto pelos dois. Criando sempre enigmas e objetivos para continuar vivendo, Leonard manipulou suas informações para que procurassem outro J. G. (o namorado de Natalie), informações que Teddy aproveita para tirar vantagens próprias. Diante disso Shelby manipula mais uma vez os acontecimentos fazendo de Teddy seu novo J. G. (o nome verdadeiro de Teddy é John Edwardd Gammel) . Este fato nos direciona para que acreditemos na história contada por Teddy. Assim como o Teddy Daniels (Leonardo de Caprio) de A Ilha do Medo (Shutter Island, 2010), a personagem cria seu próprio labirinto para se proteger de uma realidade terrível.
 

Nolan explora toda a dramaticidade que um personagem desses pode proporcionar com frases e diálogos bem interessantes ao longo do filme. Amnésia é um projeto que, mais do que pelo roteiro, se destaca pela montagem — lembrando, neste aspecto, Pulp Fiction (1994). A montagem não apenas tem relações com planos ou sequências durante o filme, mas, além de servir para prender o espectador, possui estruturalmente um simbolismo interno, como se a obra fosse ela própria um dos retratos Polaroid de Leonard, se tornando entendível apenas com o passar do tempo.
 

Mais que um desafio para qualquer espectador que o veja pela primeira vez, o filme possui uma narrativa muito bem acabada e se permite outras interpretações ao invés daquela história que Teddy nos conta. E é porque nos leva a refletir após sairmos da imersão de Shelby que o filme se transforma num triunfo do diretor. Simbólico e instigante, o longa merece tais adjetivos muito por conta de sua montagem, uma ferramenta específica do cinema e que se mostra potente nas mãos de uma grande cineasta.

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