Terra em transe vs Tropa de elite
A MONTAGEM COMO DISCURSO POLÍTICO
O cinema é uma arte que discursa com o público, isso é fato. E como tal, discursa por meio de uma linguagem que pode ser objeto da mesma crítica que Michel Pêcheux faz acerca da linguagem comum (falada, escrita, etc) — ainda que a linguagem cinematográfica não deva nada à última.
A crítica a que me refiro é acerca da transparência entre significante e significado (um significante leva a um significado arbitrário e não natural ou óbvio). Ainda que a linguagem cinematográfica tenha sido construída de acordo com reações incondicionadas do público (como a pesquisa de Kuleshov), muitos dos seus aspectos possuem significados convencionais e que são transitórios (dentro de um filme, uma montagem ou um enquadramento pode significar algo que em outro filme não significaria, de acordo com seu enredo e estrutura interna).
Porém, falarei aqui de efeitos de sentido entre locutores (compreendendo o discurso do cinema para além de seus simbolismos internos, hipotetizando como o público pode recepcionar tais discursos). Para cumprir tal objetivo usarei os filmes Terra em Transe (1967) e Tropa de Elite (2007), para exemplificar como a linguagem cinematográfica, em especial por meio montagem, pode ser recepcionada de diversas maneiras (algumas delas perigosas), independentemente das intenções de seu realizador.Farei também um contraponto entre os tipos de montagem dos filmes e quais desses tipos podem ter mais abertura de sentido por parte dos espectadores.
O filme Terra em Transe, de 1967, dirigido por Glauber Rocha, se passa em um país imaginário (Eldorado), onde Felipe Viveira (José Lewgoy) governador da província de Alecrim, decide não resistir a um golpe de Estado de direita, liderado por Porfirio Diaz (Paulo Autran). Logo no início do longa, vemos seu desfecho: a morte do protagonista Paulo Martins (Jardel Filho). Terra em Transe, portanto, trata das memórias da protagonista durante seu processo de morte.Quatro anos antes, Paulo tinha sido poeta e protegido de Diaz, ao menos até o momento em que o abandona a fim de se dedicar a uma poesia mais política. É quando ele parte para colaborar com Sara (Glauce Rocha) e conhece Vieira, que após ganhar as eleições quebra suas promessas populistas devido às ligações que mantinha com latifundiários, levando Paulo a um profundo sofrimento. A partir daí, Paulo se volta contra Diaz e, depois, volta a se aliar a Vieira (reproduzindo ele mesmo alienações para com o povo, vide a famosa cena que ele tapa a boca de um camponês).A direita começa a preparar um golpe, visto que estava temendo perder as eleições. A partir disso, os acontecimentos se seguem até o desfecho mostrado no início do filme (com Vieira sendo conivente com a direita — um tapa no populismo).
Já o filme Tropa de Elite, de 2007 (o primeiro da franquia), dirigido por José Padilha, conta a história de um capitão do B.O.P.E. (Wagner Moura), que deseja se aposentar. Mas para que isso aconteça ele precisa escolher um substituto. Paralelamente, dois amigos de infância entram na polícia militar: Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), insatisfeitos com a corrupção da corporação. Às vésperas da visita do Papa, Capitão Nascimento têm que escolher um dos dois (que se candidatam ao curso do B.O.P.E.). Depois de a operação — que inclusive tem como título "Papa João Paulo II" — ser concluída (uma verdadeira limpeza social), Neto é executado por um comandante de um dos morros do Rio. A partir daí, Nascimento parte no encalço de Baiano (Fábio Lago) para vingar a morte do colega enquanto prepara Matias para o comando.
Não pretendo fazer aqui uma análise detalhada da montagem dos dois filmes. Ao invés disso, minha intenção é dar um direcionamento estético geral para cada obra, justificando esse direcionamento (não exaustivamente) com passagens de ambos os filmes e relacionando-os com os respectivos temas dos projetos (embora diferentes, pode-se dizer que os filmes tratam de temas diretamente políticos, mas os abordam de maneiras diferentes). A ideia é apontar como essa orientação estética mais ampla contribui (ou não) para passar os sentido temático trabalhado em ambos os filmes.
Dito isso, Terra em Transe possui uma montagem que visa o rompimento da imersão do espectador durante o filme. Glauber quer que reflitamos sobre sua obra, não que mergulhemos nela. Ao começar a história pelo desfecho, o cineasta quebra toda a expectativa que o enredo poderia ter, além de construir diversas elipses temporais que geram estranhamento.Rocha visa estimular reflexão sobre a trama política que o filme traz, quebrando para isso narrativas clássicas do cinema (não por acaso o filme está na lista, ou esboço, de Francisco Malê, publicado na revista Moviement). Tal escolha estética reflete uma visão política (pessoal e artística) por parte de Glauber, interessado em fazer com que o espectador participe criticamente do filme. Desse modo, o público ficaria mais atento às forças que trabalham na trama, não se levando facilmente por nenhuma delas.
Já Tropa de Elite original possui uma estética convencional, que visa a imersão do espectador. Utilizando-se da narração em off encabeçada pelo protagonista, o público é levado a partilhar de suas angústias, medos e até mesmo a admirá-lo.Tendo como um de seus temas a atuação fascista do B.O.P.E. nas favelas do Rio de Janeiro, que realiza suas higienizações sociais por meio da violência, este tipo de montagem pode levar (e levou) a outros significados que não eram desejados pelo diretor Padilha, como a própria romantização de tal conduta por parte de quem assiste.As críticas do cineasta são sutis (a corrupção dentro da corporação, as crises psicológicas do Capitão Nascimento) e passam despercebidas pelo espectador médio. Não raro, vimos durante muito tempo crianças, jovens e adultos reproduzindo jargões do filme como: “Cadê o baiano?”, “Pede pra sair”, “Faca na caveira”, dentre muitas outras, ditas energicamente, romantizando a violência e higienização policial. É claro que o filme é muito bem feito em seus aspectos técnicos e narrativos. O problema é que sua estética abre um buraco de sentido que é preenchido, muitas vezes, de forma perigosa.Não se trata aqui de normatizar o uso de uma estética ao se tratar de temas políticos, mas de um alerta de que a intenção do realizador pode, a partir de recursos como aqueles utilizados por Padilha, não chegar de forma uniforme ao grande público, que precisa ter um compromisso ético e político para não cair nas garras do status quo, possuindo um efeito ideológico (no sentido que Marilena Chauí define no livro “O que é ideologia?”).
Sei que Padilha é um grande diretor e, como disse anteriormente, reconheço sua capacidade artística ao fazer cinema. E sei que ele fez Tropa de Elite talvez como forma de ressaltar seu incômodo com os efeitos de sentido que o primeiro filme teve. Mas o cinema, além de ser uma arte, possui um lugar social e, portanto, também possui efeitos políticos.Por isso admiro tanto Glauber Rocha. Afinal, ele tinha a consciência estética necessária não apenas para rejeitar gratuitamente paradigmas dominantes, mas para fazer com que o tipo de abordagem estética usada para tratar de uma temática levasse o público a assumir uma postura participativa e crítica, protegendo-se, assim, de outros efeitos de sentido que poderiam atingi-lo.Como diz Félix Guattari: “Tudo é política, até a estética!”