O número de diagnósticos psiquiátricos vêm aumentando exponencialmente nas últimas décadas.
Novos transtornos, mudanças no DSM (Manual diagnóstico e Estatísticos de Doenças Mentais), indústria farmacêutica, aumento da discussão de saúde mental enquanto um debate, enfim, são vários os temperos que compõem este caldo.
Como a maioria das coisas tendem a ser, este é um tema cheio de nuances e sabores.
Por um lado, o aumento do debate em saúde mental desmistifica a estigmatização historicamente associada ao sujeito que se debatia com alguma questão mental: até aqui tudo doce.
Essa construção histórica é muito bem colocada por Foucault: a loucura é um fato de civilização. Na sua “História da loucura” o Francês analisa que houve um tempo em que a loucura circulava mais livre na sociedade que se constituiu de uma maneira específica em que tal não era bem-vindo.
Neste embalo das análises Foucaultianas, Deleuze, Guattari, Basaglia, Antônio Lancetti e muitos autores militaram pelo fim dos manicômios e a implementação de serviços substitutivos de saúde. O CAPS Maria Boneca é um marco para nossa cidade, mas também nacionalmente.
Esses movimentos teóricos e sociais contribuíram de alguma forma para o aumento do debate público em saúde mental e para uma diminuição da estigmatização do sujeito em sofrimento em geral, não só aquele que necessita de um acompanhamento mais próximo.
Não era raro, e talvez ainda hoje não seja, que falas estereotipadas do tipo “terapia é coisa de doido”, “na minha época não existia isso” sejam por nós ouvidas.
Porém, estamos um pouco diferentes em relação a tais falas anacrônicas.
Passemos então, para a parte amarga.
Não é incomum na clínica o sujeito diante de um sofrimento se identificar com um diagnóstico psiquiátrico de saúde. Para dar conta de seu sofrimento, o sujeito precisa nomeá-lo de uma maneira reconhecida socialmente, o que um diagnóstico psiquiátrico oferece.
O diagnóstico deixa de ser apenas uma bússola clínica e passa a ser uma identidade. Várias pessoas - isso também fora da clínica - passam então a se apresentar pelo nome de seu transtorno: “Oi, eu sou TDAH”.
Em psicanálise, julgamos que uma pessoa entrou em análise quando a pessoa de alguma maneira, se faz uma pergunta sobre seu sintoma. Isso quer dizer que aquilo que gera sofrimento, aquilo que é incontrolável, se desloca de uma queixa e de uma demanda de livramento em uma pergunta sobre si.
Com as identificações de sintomas em transtornos psiquiátricos, há um conforto curioso: seu sintoma não o questiona em nada, ele é uma doença, uma externalidade em si, mas que ainda assim o define.
Mais ainda: o diagnóstico fecha a escuta do inconsciente respondendo a pergunta mal formulada de maneira circular. “Ah, eu sou assim por que eu tenho depressão!” “Eu não consigo por que eu tenho ansiedade”.
Nesse sentido, talvez o diagnóstico possa ser mais uma forma de resistência.
A doença, no contexto atual e delimitado adquire uma certa positividade: vira uma moeda de troca nas relações do sujeito, sejam as de trabalho, sejam as amorosas.
Por vezes, o desresponsabiliza frente o outro.
Não se trata aqui de negar a existência do sofrimento. Antes de se perguntar: quais os manejos coletivos que damos ao sofrimento atual? O que estamos fazendo com a dor, a impotência e o cansaço?
Também não busco invalidar diagnósticos, mas pensar os lugares que estes vêm ocupando social e individualmente.
O DSM se pretende ateórico e neutro mas, possui diversos enviesamentos sociais. Por exemplo, a homoafetividade e as identidades trans já foram patologizadas por este mesmo manual “ateórico” e “neutro”.
A crítica de Djonga é bem feliz ao nos nortear sobre o papel do diagnóstico: “Quem tem minha cor é ladrão, quem tem a cor de Éric Clapton é Cleptomaníaco”. A perspectiva que fermentou a já citada reforma psiquiátrica sempre trouxe que o diagnóstico atua num lugar de normalização social, atravessado por raça, classe e gênero.
Hoje, vemos esta outra função do diagnóstico:
- A identificação individual que conforta e paralisa o sujeito;
- A moeda de troca que se tornou nas relações interpessoais;
- A continuação do movimento de patologização de desadaptações sociais, atualmente guiado pela lógica neoliberal.
Em psicanálise o diagnóstico teórico e não neutro, cheio de contradições e disputas, serve apenas para balizar a condução do tratamento e não encaixotar o sujeito. Ela é um cuidado em saúde, norteada pela ética do desejo. A verdadeira psicanálise trata do pathos no seu sentido radical “paixões” e não da patologia.
Digo isso pois, o sofrimento parece só encontrar lugar num diagnóstico. E quando ele não o encontra é insuportável para o sujeito, parece não haver uma outra saída possível, seja individual (os destinos e elaborações possíveis), seja coletiva (lugares de reconhecimento, mudanças culturais) .



