Uma das bases da montagem cinematográfica e um dos efeitos mais conhecidos do cinema é aquele intitulado “Efeito Kuleshov”. O cineasta russo Lev Kuleshov realizou uma série de experimentos nos quais fazia uma justaposição de planos, obtendo assim uma nova significação.
Qualquer estudioso do cinema já viu a famosa foto do ator Russo Ivan Mozzhujin seguida de três imagens: uma mulher no caixão, um prato de comida próximo a um copo e uma mulher deitada num sofá. O interessante do experimento consiste no fato que a expressão do ator não muda e, no entanto, as pessoas davam outras significações ao seu humor, de acordo com a imagem que era sobreposta. Desse modo, as pessoas viam um homem com fome, caso a foto do ator fosse seguida do prato e da bebida; um homem triste, caso sua imagem fosse seguida pela imagem da mulher no caixão ou uma pessoa com desejo, caso a foto da mulher deitada viesse após a foto do ator.
Esse é um dos efeitos mais básicos do cinema e, caso não houvesse a ocorrência desse fenômeno, muito dificilmente o cinema seria essa arte tão rica e instigante. A descoberta desse princípio teve diversos desdobramentos, havendo cineastas que o exploraram mais que outros. André Bazin, um dos ícones da teoria cinematográfica, acreditava que a composição do plano sem cortes proporcionava um maior realismo, gerando uma nova relação entre atores e objetos. Dziga Vertov, contemporâneo e conterrâneo de Kuleshov, acha o efeito extremamente subjetivo e também achava que, através dele, o expectador ficava a mercê do cineasta.
Hitchcock foi um dos cineastas que mais bem usou a favor de seus filmes e de sua narrativa as vantagens deste princípio. No livro Hitchcock/Truffaut, obra-prima obrigatória para qualquer estudante de cinema, ele fala abertamente ao cineasta e teórico francês sobre como esse efeito é importante em sua carreira, fazendo total diferença em vários de seus filmes, como, por exemplo, Janela Indiscreta (Rear Window, 1954).
Pouco antes de Kuleshov (que descobriu este princípio especificamente para o cinema e pelo cinema), Edmund Husserl (1859–1938), inspirado na ideias de Brentano (1838–1917), na tentativa de superar de vez a oposição entre empiricismo e idealismo, formulou a conceito de intencionalidade da consciência. Neste conceito, a consciência, assim como o objeto, não existe a priori, mas apenas na relação entre si. Toda consciência é consciência de algo. A consciência intencional não é passiva no sentido de ser um recipiente que é preenchido com as percepções do mundo, mas ela só existe em seus atos. Desse modo, ela percebe os fenômenos de modo geral, situando-os, significando-os.
Edmund Husserl.
O filósofo se situa na teoria do conhecimento (as investigações de Husserl buscavam responder como o Homem conhece; os limites e potencialidades de seu ato de conhecer) e foi o pai da fenomenologia (um método, uma epistemologia ou uma ciência do rigor, como ele a chamava) que teve diversos desdobramentos nas ciências humanas em geral. Apesar disso, suas descobertas acerca da consciência, do ato de perceber e conhecer são perfeitamente relacionáveis às descobertas de Kuleshov, como se os efeitos obtidos pelo teórico russo só se dessem devido a esse caráter intencional da consciência, investigado amplamente por Husserl.
Temos aqui um efeito bastante conhecido que se mostrou como uma das bases da arte cinematográfica e que é possibilitado pelo caráter eminentemente humano tanto de espectador quanto de cineasta. Ou seja, uma arte que, como qualquer outra, se sustenta no ser.






