Aviso da redação: o texto abaixo contém spoilers de Black Mirror, sendo recomendado apenas para aqueles que já conferiram a produção britânica.
Intitulado “15 Milhões de Méritos”, o segundo episódio da série inglesa Black Mirror, em minha opinião uma das melhores já produzidas, é situado num universo de massificação/exploração, características que remetem a obras literárias consagradas como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell.
O episódio, no entanto, não mostra ao espectador como o poder/controle é configurado, ao menos em termos de instituições governamentais. Ou seja, não se preocupa em caracterizar o Estado no qual a história se desenrola. Eis um dos ganhos da série, já que a obra criada por Charlie Brooker mostra que controle e poder se dão, também, em outras esferas de relações que não apenas as instituídas enquanto governo, ideia esta que, inclusive, se aproxima muito do foco de estudo do francês Michel Foucault.
Os personagens vistos no episódio pedalam o dia todo na busca por aquilo que se conhece como méritos. Enquanto isso, produzem, através do esforço que fazem, energia o bastante para manter funcionando a sociedade em que vivem. Ao longo do tempo em que trabalham, são assaltados por jogos e programas de televisão, tendo que obrigatoriamente escolher assistir a um deles como forma de não serem punidos. A cada ação que executam — se alimentar, escovar os dentes, optimizar o sistema operacional de seus quartos — , gastam os créditos que acumulam diariamente como pagamento. Veiculação de pornografia também é algo gritante e, por vezes, incômodo. Todo esse contexto me faz lembrar uma frase de Rick, da animação Rick and Morty, quando o personagem visita um planeta distante da Terra no episódio 7 e diz: “as classes mais baixas desse lugar são manipuladas com sexo e tecnologia. Parece familiar?”.
Outro aspecto que também se destaca na regulação e manutenção das pessoas naquele universo distópico é um show de talentos conduzido por três jurados, prometendo fama e dinheiro (ou a saída daquela realidade massacrante) aos que alcançarem as melhores performances. Para se apresentar no show, a pessoa tem que reunir os quinze milhões de méritos do título, indo logo depois para uma fila e, nesse ponto, também esperar pelo momento em que será chamada.
Aqui a inspiração é expor um dos valores que regulam ideologicamente nossa sociedade: a meritocracia (não por acaso, o nome da moeda utilizada pelos personagens é “méritos”). Selma, a garota que possui bastante espaço na mídia, é tratada como uma das exceções que avançaram por meio do programa, agenciando desejos e esperanças em relação ao resto da população e mantendo-os assim: dóceis, já que, teoricamente, não estariam presos em suas realidades. Outra coisa que reforça a ideia de prisão é a arquitetura compartimentalizada, organizada, vistorizada; cada indivíduo ocupa o lugar que lhe é devido, configurando o que Foucault chamou de regime disciplinar (próprio das prisões, tal regime se reflete na arquitetura, o que também pode ser visto em outras instituições, como as escolas, por exemplo).
Em suma, acompanhamos no episódio um rapaz chamado Bing (Daniel Kaluuya), que parece apático nesse meio cinza, “escolhendo” opções básicas de entretenimento e, por vezes, perdendo méritos por recusar pornografia. Uma mulher chamada Abi (Jessica Brown Findlay), belíssima, começa a chamar sua atenção. Ao ir ao banheiro, Bing escuta Abi cantar uma linda e doce canção. O personagem, então, se propõe a gastar toda sua herança para que Abi possa se apresentar no caro e concorrido show de talentos. Após relutar por algum tempo, ela aceita. Bing a apoia e, pela primeira vez, exibe traços de genuína animação em meio àquele mundo de artificialidades.
Quando ela se apresenta de forma suave e gentil, porém, não satisfaz os padrões exibicionistas de tais espetáculos. Mas por conta de sua beleza é chamada por um dos jurados para trabalhar no ramo da pornografia, sendo ovacionada e pressionada a aceitar por uma plateia que delira com a proposta. Tendo sido drogada antes de entrar no palco, ela aceita, de modo quase robótico, ao mesmo tempo em que Bing, no backstage, se enfurece e é contido pelos produtores do show.
Depois do ocorrido, Bing retorna à sua apatia niilista e passa a economizar cada vez mais para comprar outro ingresso para o programa, dessa vez com o intuito de fazer uma apresentação ele mesmo. Ensaiando danças desajeitadas e aproveitando comida interceptada pelas máquinas responsáveis pelo serviço, finalmente ele alcança a quantidade de méritos suficientes. Quando chega aos bastidores, ele fica apenas parado, portando uma lâmina de vidro (que caíra da tela de seu quarto) e a embalagem da substância que Abi tomara antes de se apresentar. Convidado a subir no palco, o personagem engana a produção e evita tomar a droga “ofertada”. Após uma pequena e grotesca apresentação de dança, coloca o vidro em sua garganta e ameaça se cortar caso alguém se aproxime. Titubeando por alguns instantes, inicia uma densa e emocionada crítica ao sistema, tratando sobre sua artificialidade e sobre a maneira com que se apropria de tudo que é real.
Nesse momento, Black Mirror supera os clássicos referidos no início deste texto. Um dos jurados propõe que Bing faça um show relacionado à visão crítica e emocional presente naquele contexto, concedendo a ele tempo na televisão para que exponha suas ideias. Desajeitado, ele aceita.
As cenas seguintes mostram que sua antítese raivosa serve agora para regular a própria tese.
É a partir disso que o capitalismo moderno opera. Deleuze e Guattari, ao tratarem sobre o surgimento do novo, pensavam sempre a colocação de um órgão, de uma definição e função especifica no sentido de apropriação e comercialização, tornando mercadoria o que ameaça as relações de poder vigentes ao invés de combate direto (o que ainda acontece, claro). Desse modo, aquilo que transborda do comum, do aceitável, é reduzido e torna-se ele mesmo uma forma de compensação de insatisfações. Para recorrer a um exemplo, basta vermos como Che Guevara se transformou em marca hoje em dia.
Dono de uma linguagem cinematográfica clássica, com efeitos especiais que honram a qualidade imagética de toda a série, o segundo episódio de Black Mirror nos alerta sobre a necessidade de adotarmos certos métodos de luta e de crítica em nossa realidade. Para além do niilismo incapacitador responsável por gerar almas insatisfeitas, atua como vetor para reflexões sobre como questionar sem que sejamos reinseridos na esteira de produção de subjetividades e valores. Apenas assim teríamos alguma chance de abalar ou transformar o núcleo de poder que sustenta relações exploratórias e produtoras de artificialidades.




