Existia uma ovelha que nunca se sentira parte do rebanho.
Sua mãe, certa feita disse-lhe que a amamentara por engano, que ela havia se misturado junto as seus irmãos passando-se desapercebida.
A ovelha chorou em segredo depois de ouvir isso.
Sua adolescência não foi diferente, os amigos sempre evitaram-na e quando aceitavam que ela participasse de alguma brincadeira era sempre mediante a palavras de desprezo.
A ovelha passou a vida pensando sobre o motivo de tudo isso. Tinha algo errado com ela? Porque as pessoas não a aceitavam como parte do rebanho?
Esse incômodo era tão grande que as vezes perdia o fôlego e sentia que estava prestes a morrer.
A pergunta ressoava no mais profundo de seu ser, compunha todo o cálcio de seus ossos e toda a queratina de sua lã.
Por acidente, quando estava tomando uma distância das ofensas do rebanho, ouviu uma música dos humanos, que contava sobre uma ovelha negra. Passou então a se sentir assim, como se a pergunta que flutuava por todos os recônditos de seu coração tivesse sido finalmente respondida.
O que mais a movimentava agora era o desejo de encontrar um espelho, confirmar que era uma ovelha negra a abrir mão da pergunta que arranhava-a por dentro, a impedindo de dormir todas as noites.
Depois de planos mirabolantes para enganar os humanos que envolvia fingir uma doença e provocar extrema consternação entre eles, finalmente foi colocada dentro da casa.
Uma vez estando cercada pelas paredes andou por todos os cômodos até se deparar com o objeto refletor.
Parecia que corria gelo e ao mesmo tempo fogo pelo sangue da ovelha.
Ela olhou-se.
Por alguns instantes a sensação foi tão forte que se sentiu suspensa no ar.
Era branca como as outras ovelhas.
Pela primeira vez entendeu realmente toda a sua vida.



