A última casa, filme de 2026 e presente na Netflix, trata da história de uma família que acaba por ficar presa em sua casa de uma maneira inexplicável.
O filme é dirigido por Louis Leterrier. A família que é o principal núcleo do filme é composto por Jason (Wagner Moura), Riley (Greta Lee), Graham (Gabriel Chung e Noah Alexander Sosnowski) e Ruth (Riley Chung e Emma Ho).
Aqui o paralelo com a pandemia de COVID é inevitável por se tratar de um isolamento social, ainda que forçado. A comunicação, as relações interpessoais são, inclusive um dos temas pincelados pelo filme, como a narração em off do início e do fim tenta trazer. Contudo este tema é apenas rebuscado nas interações entre as famílias forçosamente engaioladas.
Outro tema levantado pelo filme é sobre a relação predatória dos seres humanos com o planeta, como na conversa entre Wagner e Greta sobre como a natureza prospera sem as atividades humanas. Contudo, também não há realmente um discurso sobre a temática por parte da obra.
Um tema que funciona bem como subtexto é a questão alimentícia e predatória. Logo na primeira cena a personagem está pescando, e ele solta o peixe por ser pequeno demais (atenção aqui). Os peixes do aquário do filho aparecem de maneira consistente e contrastando com a prisão da família, o subtexto pergunta: agora quem está no aquário? Quem está pescando quem?
Este tema ganha relevância quando fica mais fortemente sugerido que a força inexplicável que os estão prendendo são animais marítimos de estilo lovecraftiano. Como numa vingança da natureza os seres humanos são agora a presa.
Em algumas das críticas que tive contato, o final da obra principalmente foi bastante criticado tanto na sua cinematografia quanto em seu final clichê. Depois de um clímax que gira em torno da batalha contra a criatura, a família consegue sua liberdade ao poupar o ente marítimo e receber o mesmo por parte da espécie.
Apesar de concordar acho que o filme mantém seu valor em algumas das suas temáticas. Além das que levantei ao decorrer do texto, uma que ficou clara para mim foi sobre a masculinidade.
Jason está o tempo inteiro se colocando como o provedor, como o salvador da família, como a pessoa que os faz sobreviver. No filme demos algumas dicas que sua posição tradicional de homem provedor não é bem garantida devido ao desemprego e falta de dinheiro, o que justamente mantém a família numa casa cheia de danos estruturais. Não atoa, o filme tão citado “Força aérea um” trata de uma temática bem parecida, fornecendo uma figura de identificação para a personagem.
Num dos ápices deste lugar que a personagem se coloca está a cena em que ele está preparado para morrer para salvar a família. Algo que poderia ser visto por uma prisma romantizado, passa mais a ideia de que a rigidez dessa posição masculina é tamanha que precisa ser alcançada de qualquer forma, ainda que pela morte. O homem-mártir autodestrutivo.
Sua esposa o tira deste lugar em várias intervenções, furando um pouco a ilusão de que ele é o único a garantir a sobrevivência da família. Ali, todos contribuem, todos possuem um papel.
A resolução do clímax (não necessariamente o final do filme) me parece não reforçar este estereótipo clássico masculino. Primeiro porque ele relembra a maneira como sua filha enxergava a situação, pela primeira vez realmente ouvindo-a. Segundo porque, ressoando com a primeira cena, ele não mata a criatura porque percebe que nem sempre a violência é a saída.
A última casa, funciona muito bem como um suspense em um universo de ficcional atuando como suporte para várias discussões. Como um filme de Hollywood ainda possui suas formas enlatadas pra ser palatável ao público. As narrações em off, por exemplo, são inteiramente dispensáveis. O final feliz é uma premiação para as personagens e para o público que sofreram com tanta claustrofobia.




